Memórias ao ar

Mofo e poeira lhe estapearam as narinas quando abriu aquela caixa. Sabia o que tinha ali, contido entre aquelas paredes de papelão. Na verdade, sabia mais. O mofo e a poeira eram partículas de memória, que chegavam até ele enquanto desencaixava seus velhos cadernos. Diários, anotações, ideias, sentimentos, começavam a evaporar e grudar em sua pele. Sorriu enquanto folheava aqueles papéis carregados de tempo, com as doces lembranças voltando à sua mente. Saudades de um passado que não era mais que isso. Lembranças e pó.

Espirrou.

Seu corpo rejeitava as memórias como intrusos. Não faziam mais parte dele. Guardou tudo novamente e empurrou a caixa para baixo da cama, onde era seu lugar. Seu nariz coçava e agora precisava de um banho para lavar o corpo daquela nostalgia que grudava em sua pele.

 

 

Texto escrito na Oficina de Escrita Criativa da III Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, organizada pela BCCP, no dia 25 de outubro de 2022.

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