O Velório

Quando a primeira pétala caiu, foi como se uma onda varresse a realidade, levando parte das cores embora. Quem viu isso em primeira mão foi Pedro que, durante os quatro dias, observou a flor em seu recanto, uma caixa de sapatos com um sorriso desenhado na lateral. Eram as férias de julho, e quando Pedro não estava do lado de fora “procurando algum machucado” — como sempre dizia sua mãe — ele estava olhando a flor que ficava na janela. Ele a achava engraçada, pois sempre que a olhava tinha a impressão de que ela estava dormindo.
— Mãe, essa tal flor não acorda nunca?
Perguntava de vez em quando, o que fazia a mãe, uma mulher de meia idade, alguns quilos acima de seu peso ideal, sorrir. Ela sempre imaginava que o garoto estava esperando a flor tirar as raízes da terra e sair andando da caixa de sapatos que havia adotado como sua casa.
— Espere. Quem sabe um dia…
Era o que ela sempre respondia e voltava aos afazeres domésticos, não antes de dar um grande abraço no filho. Não importava o quanto seu marido reclamasse, era aquela inocência que o tornava especial.
Sempre que o marido estava perto de chegar, ela escondia a bendita flor. Sabia exatamente o que ele diria se encontrasse Pedro encarando a flor.
“Esse garoto vai virar uma bicha”, ela podia quase ouvi-lo dizer.
Não precisava que o filho passasse por isso. Por essa razão, a flor passava suas noites debaixo do armário da cozinha.
E foi na quarta manhã, com Pedro olhando a flor — provavelmente esperando que ela acordasse — que aconteceu o que era inevitável, mas que todos esqueceram que aconteceria. A flor começou a desvanecer. Caiu uma pétala sua, e Pedro finalmente reparou que ela não estava dormindo.
— Mãe! Mãe!
O garoto correu pela casa, aos berros, chamando. Chegou na pia onde a mãe lavava os pratos e começou a puxá-la pela barra da blusa, a levou até a caixa da flor e não lhe disse nada, apenas apontou com uma face de preocupação.
Na hora a mulher não entendeu. A flor parecia normal para ela. Foi quando se aproximou e viu a pétala caída na areia que percebeu toda a situação.
— Filho, eu acho que ela está morrendo.
A mãe disse com toda a calma do mundo.
— Então vamos levar ela pra um hospital, mãe!
Aquilo quase fez a mãe rir. Ele estava mesmo preocupado com a flor.
— Não dá, filho. Não existe um hospital para plantas.
E por que ela tinha que morrer tão rápido? A vovó demorou um milhão de anos pra morrer.
A mãe lembrou do enterro da vó dele que tinha acontecido a pouco tempo. Não deixou o filho ver o corpo da vó, mesmo com o pai dele dizendo que seria bom pra ele aprender sobre a morte.
— Porque é natural delas. Ela talvez tivesse durado um pouco mais se tivéssemos deixado ela onde encontramos.
Lágrimas começaram a se formar no canto dos olhos dele. A mãe percebeu que finalmente tinha caído a ficha para ele de que não havia nada que pudessem fazer.
O garoto enterrou o rosto na barriga da mãe e ela sentiu que ele estava chorando, mesmo com a roupa já molhada de lavar louça.
— A gente vai enterrar ela, mãe?
Já estava pra responder que não se enterram flores, apenas pessoas ou animais, mas percebeu que talvez fosse importante para ele.
— Vamos, filho. Vamos sim.
E o abraçou mais forte.
Pegou uma pá, abriu uma “cova” no quintal e usou a própria caixa de sapatos como caixão. Colocou a caixa dentro do buraco e, antes que pudesse enchê-lo de terra novamente, Pedro falou.
— Mas, no enterro da vovó, os amigos dela não disseram alguma coisa antes de enterrarem ela?
— Quer falar alguma coisa pra sua amiga?
Saiu quase que no automático, mas a mãe sabia que o filho realmente enxergava assim. Depois de quatro dias convivendo com ela, a flor havia se tornado sua amiga.
O garoto pensou por um tempo e falou.
— Mas o que eu digo, mãe?
— Diga o que você gostava nela. Diga o que você acha que não teve tempo de dizer quando ela estava viva.
A mãe disse pensando no enterro de sua mãe. Tanto pra dizer que ficou guardado.
Pedro pensou mais um pouco e finalmente começou.
— Quero pedir desculpas por ter te tirado da sua antiga casa, talvez você pudesse continuar viva se estivesse lá. Talvez você só estivesse triste, era por isso que não acordava. Pra mim você foi uma excelente amiga. Sempre me ouvia, nunca ria de mim. Nenhuma flor do mundo vai poder te substituir.
A mãe o olhou com ternura e ele acenou com a cabeça, depois de alguns instantes jogou a primeira pá de terra sobre o corpo da flor.
— Adeus.
O garoto disse, e foi naquele momento que a mãe percebeu que o filho seria um bom homem.

Comentários

  1. Que conto mais singelo e encantador, ele fez meu dia mil vezes mais agradável ♥
    antique faerie

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  2. Isso foi realmente lindo! Nunca pensei em um velório com uma ótica tão lúdica e inocente, gostei muito do seu trabalho, obrigada por compartilhá-lo! :)

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    Respostas
    1. Obrigado a você pode comentar, isso incentiva demais a continuar postando por aqui.
      (Desculpa a demora para responder ao seu comentário...)

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